segunda-feira, 30 de julho de 2018

Cidade Efémera

"Enquadramento
[cidade efémera 1] As palavras que se vão seguir partem de um facto concreto, a destruição de uma horta urbana, em Viseu, para algumas reflexões sobre a própria cidade, sobre cidadania. 
Os arquitetos Luís Pedro Seixas e Nuno Vasconcelos, desenharam uma horta, Jardim Alimentar, para ser implantada no espaço do antigo Mercado 2 de Maio, no coração da cidade de Viseu. A iniciativa estava enquadrada nos Jardins Efémeros, uma criação de Sandra Oliveira. 
O projeto utilizou paletes em madeira para definir um espaço que não albergava apenas mais de 20 espécies hortícolas — como manjericão, salsa, várias diferentes alfaces, cebola, courgettes, abóbora, beterraba, etc — como criava um recinto de estar, com várias dezenas de lugares para quem quisesse se sentar. A peça, de desenho cuidado e muito bem articulado com a envolvente, dialogava com as árvores da praça, que ensombravam um parte daquela área. De algum modo esta horta também evocava a própria memória daquele espaço, um antigo mercado, há décadas reconvertido em espaço de lazer. Era o regresso dos produtos hortícolas a um lugar que fora nevrálgico dentro da cidade como ponto de encontro de toda uma comunidade. Era assim com todas as vilas e cidades portuguesas até as dinâmicas evolutivas do comércio assumirem outras formas. 
O desenvolvimento e implementação deste projeto estava articulado com várias escolas do ensino básico do município. As crianças eram levadas ao local e estimuladas a cuidar da horta, a conhecerem as suas espécies e a relacionarem o que ali viam com alguns dos mais saudáveis alimentos de que podemos dispor no nosso quotidiano.

Homenagem
[cidade efémera 2] Mas esta horta era também mais do que isso. Foi uma homenagem breve ao mundo rural. Foi o trazer para dentro da cidade a dignidade de quem, nos campos, permanece a cultivar os solos, a desenhar, em jardins, paisagens que hoje vão estando cada vez mais dadas ao abandono. O grave problema da demanda das terras é o abandono da sustentabilidade de uma parte muito significativa do território. O abandono, sabemo-lo hoje, de forma muito clara, significa fogo, mais tarde ou mais cedo. Compreendamos a dureza da labor da terra, mostremos a nossa gratidão a quem resiste no seu trabalho e permanece erguido numa luta milenar, que é, também, a luta da própria civilização. 
Esta homenagem ao mundo rural que a horta do Mercado 2 de Maio representou é especialmente significativa na cidade em que aconteceu: Viseu. A cidade está rodeada de centenas de aldeias e lugares, dentro dos limites do seu próprio concelho. Em 2015 no âmbito de um projeto proposto ao concurso Viseu Terceiro, e financiado parcialmente pela Câmara Municipal de Viseu, tive a oportunidade de fotografar 240 aldeias e cerca de 160 outros lugares de povoamento humano menos acentuado. Este é um território com numerosos pontos de interesse e é esta malha labiríntica de um povoamento humano milenar que esta horta também prestava homenagem. Foi o trazer a nobreza da agricultura, de uma beleza que poucas vezes, urbanos, reparamos, para o centro cívico de uma cidade.


Destruição
[cidade efémera 3] No dia 18 de julho a horta foi arrancada e, nos mesmos canteiros, foram plantadas flores, como aquelas que encontramos em várias rotundas da cidade. No espaço central da antiga horta foi aplicada uma “carpete” de plástico brilhante de cor verde. Contraditoriamente permaneceram as palavras das crianças que tinham ajudado a plantar a horta. A estimativa para a recolha dos alimentos ali produzidos apontava para o final de agosto ou princípio de setembro próximo, pois nessa altura estaria concluído o ciclo produtivo da maior parte daquelas espécies vegetais. Nesse momento, que assinalava o fim deste singular projeto, seria cozinhada uma sopa comunitária e servida aos cidadãos da cidade. Tudo tinha o detalhe e a sabedoria de uma construção coletiva que fluía naturalmente.

Futuro
[cidade efémera 4] Decorrente do trabalho que tenho desenvolvido sobre o mapeamento do espaço português, já percorri e fotografei todas as cidades do nosso país. Não tenho dúvidas em afirmar que Viseu é a mais bem estruturada cidade de Portugal, em termos da sua malha urbana e fluidez de tráfego. São também relativamente reduzidas as formas mais agressivas de um urbanismo descontrolado como vemos em tantas outras urbes. O centro histórico, sem deixar de ter alguns problemas, está relativamente preservado. Viseu tem um potencial muito positivo como exemplo de boas práticas, de relação entre a própria malha urbana e a ruralidade que a envolve. Este projeto da horta levantava essa questão de forma muito clara. Era a criatividade de quem acredita na sua cidade, de quem nela vive, que procura construir esse percurso alternativo que não passa por ações de marketing esvaziadas de conteúdo. Os Jardins Efémeros, dentro dos quais esta iniciativa se enquadrava, são um espaço de diferença, irreverência e inovação. São, todos os anos, um contributo muito significativo para uma cidade nova, de que faz parte a Natureza, seja na forma perplexa da sua pujança evolutiva, seja na miríade de afeiçoamentos que a humanidade, à escala planetária, com ela tem dialogado desde os primeiros passos de um processo de uns poucos milhões de anos. Se há uma ruralidade em declínio, gestos simples, economicamente acessíveis, podem criar uma nova sensibilidade para as questões que gravitam em torno da sustentabilidade dos territórios. Que a destruição de uma horta não seja o prenúncio de uma cidade efémera."


Texto de Duarte Belo, Cidade Infinita 

Foi bonita a festa, pá!


Se a frequência do mural do Município de Viseu não me tivesse sido bloqueada, lá ia comentar que o Europeade valeu a pena. Assim, tenham a gentileza de lhes transmitir a mensagem, grato! 

Para vossa segurança não digam que vão da minha parte.

domingo, 29 de julho de 2018

sexta-feira, 27 de julho de 2018

Folk do Delta do Dão


O Viseense não sabe programar, garante o nosso Sobrado preferido. De modo a provar o Vereador-Rei certo, deixo aqui um best off de álbuns nascidos durante um #Viseufolk à medida de beirões:
- Bob Dylan - The Times They Are A-Changin
- The Pogues – Rum Sodomy and the Lash
-The Watersons – Frost and Fire
- Bon Iver – For Emma, Forever Ago
- Nick Drake – Five Leaves Left
- Devendra Benhart - Niño Rojo
- Bonnie 'Prince' Billy - I See a Darkness
- Elliott Smith - Elliott Smith
- Jack White - Live at The Adega Cooperativa de Silgueiros

quinta-feira, 26 de julho de 2018

Viseu Folk



Quando falaram em Folk ainda pensei nos White Stripes, em pleno Fontelo, a darem tudo numa cover do Dylan. Como sempre, estava enganado! 

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Ao Domingo Viseu tem...



Ao Domingo Viseu não tem: Transportes Públicos; Recolha de Resíduos Urbanos; Bibliotecas. 

Ao Domingo Viseu tem: Núcleo Municipal de Recolha de Cartazes

...


Aqui jaz a presidência de António Almeida Henriques (2013-20XX), tendo o Vereador-Rei Jorge Sobrado lançado a primeira lápide.

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Europeade


Admito que tenho dois handicaps impeditivos de ser bom programador cultural, sou viseense e não sou discípulo do dr. Sobrado. Declarada a minha santa ignorância, tenho de vos dizer que ainda assim um homem tem direito a sonhar (neste caso programar). Portanto, tendo em conta que na próxima semana se realiza o Europeade, acolhendo a cidade muito estrangeiro trajado à lavrador, não seria boa ideia a C.M.V aproveitar a mão-de-obra de modo a amanhar o Parque Urbano da Aguieira? Sempre se deixava o pessoal da CMV livre para a limpeza do IP3, enquanto se poupavam alguns euros para investimento estratégico em propaganda. Pensem nisto que eu não vou cobrar direitos de autor (saio mais baratinho ao município que o gabinete de comunicação). 

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Selva Urbana da Aguieira


Interior (em coma) profundo

Décadas de fundos comunitários e muito pouco tem sido feito para tornar o interior uma região competitiva. A cada governo, um punhado de medidas paliativas vocacionadas, apenas e só, para o momento eleitoral seguinte, portanto inconsequentes. Hoje, como ontem, falta o essencial; fazer do interior uma região viável para pessoas e empresas. Sem o Estado presente, sem uma economia forte, sem rede de transportes, sem oferta de emprego, sem acesso a tecnologia, sem ensino superior que investigue e dê resposta às necessidades regionais, podem anunciar as medidas que entenderem, que a população continuará a pagar portagens para sair.

Feirar?


Em entrevista, Álvaro Covões, responsável pelo sucesso do Nos Alive, quando pensa num exemplo de Feira com uma abordagem moderna à programação, sem hesitar, refere a FATACIL. Aparentemente, por Viseu, nem sabemos fazer (segundo o douto vereador da Cultura) nem nos sabem ensinar (5 anos de puro génio e além Dão permanecemos anónimos). Caso para dizer: Embrulha o ego e vai Feirar!

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Em So(m)brado


Na última noite, durante a apresentação da digníssima Feira de S. Mateus, o Dr. Sobrado toma o púlpito, faz os agradecimentos devidos e, ainda no pré-clímax da sua pregação (sabemos que um vereador não é de ferro, portanto devemos conceder o direito ao clímax ocasional), afirma que está formar "grandes quadros em Viseu". Naquele momento, ficámos a saber que, graças à sua intervenção, num futuro não muito distante, Viseu terá gente competente em áreas como a comunicação, a gestão, a programação, logística, entre outras. Assim, um espectador mais desatento poderia assumir que, durante centenas de anos, o povo de Viseu atravessou um metafórico deserto de competências e quadros, agora, guiado pelo verdadeiro Messias, este nobre povo atingiu a terra prometida. Sobrado acrescenta que não faltará muito para que ele não seja necessário entre nós, um apóstolo não existe sem missão e a do Dr. Sobrado está quase concluída. O público, filho da carne, jubiloso por finalmente estar perante um filho da promessa, aplaude. Na minha aldeia, composta por gente séria, trabalhadora, competente, mas pouco ortodoxa nos modos, estava apresentada a dica para pegar o santinho em ombros, não esquecendo o andor, e devolver à procedência.