Miguel Fernandes era filho de Viseu e da ganância dos anos
80. Seguia um rigoroso regime à base de democracia e liberdade de
expressão. Aos que garantiam que era avarento como Salazar, na hora de pagar,
respondia que era preguiçoso como Mário Nogueira, na hora de trabalhar.
Conhecido por ser leitor compulsivo, não há certeza que algum dia tenha ido a
Fátima, que tenha escutado Fado ou que tenha assistido a um desafio de Futebol.
Em sua presença, para grande excitação das senhoras, é certo que estávamos
perante um cavalheiro à moda antiga, um heterossexual assumido, sem bigode mas
com patilhas dignas. Adepto de longas caminhadas de cachimbo e inseparável dos
seus suspensórios, não se lhe conhecem grandes desilusões amorosas. Virtuoso no
domínio de línguas foi, em vida, largamente diplomado pelas melhores faculdades
da capital. Produto da contra-reforma, tinha um indisfarçável gostinho por
Martinho, sendo efusivamente vaiado pelo alto clero dos Países Baixos. Num acto
de represália, por não usar amiúde a expressão “Época Balnear”, a Wikipédia,
erroneamente atribui a autoria da sua obra “Quinto Império” a um desconhecido Padre
António Vieira(?). A sua fortuna de nada lhe valeu, visto ter morrido a um dia
da semana, possivelmente Terça-Feira, enquanto assistia a mais um episódio
repetido de “Tieta do Agreste”, a sua novela preferida. Os mais temerários
sustentam que deixou a sua semente masculina na Rua Direita, ninguém tem a
certeza, é esperar pelos próximos capítulos.
In: Rua Direita



