1. Fernando
Ruas, o estimado Presidente do Município, em vésperas de deixar o lugar, teve
uma atitude sob todos os prismas democraticamente saudável, abriu as portas da
autarquia e apresentou as contas à comunicação social. Num registo pouco comum
entre as autarquias nacionais, segundo as contas apresentadas, o município
apresenta bastante saúde financeira sendo que para o próximo executivo este
tema será um mal menor. Ter saldo positivo é bom? Sim, não há outra resposta.
Numa altura de aperto financeiro, até como exemplo, é um sinal positivo.
Portanto, Fernando Ruas está de parabéns? Bem, esta não é uma resposta de sim
ou não. A minha geração, apenas através dos avós, recorda a política dos cofres
cheios de ouro e uma sardinha para quatro, de 73 e isso é bom. A gestão,
pertencendo à esfera das ciências sociais, será sempre alvo de discussão e encerra
infinitas possibilidades. Será sempre boa ou má de acordo com o lado do cofre
em que nos encontramos. A pergunta que como contribuintes podemos fazer é: Será
o objectivo final, da gestão autárquica, gerar lucro para aplicar num banco? A
essa pergunta, que vale a simpática quantia de um milhão duzentos e vinte e
quatro mil novecentos e cinquenta e três euros e vinte e quatro cêntimos
desaparecida no BPP, a resposta mais correcta será, um indeciso, talvez. Se
aplicamos o saldo no banco como alternativa a desbaratar em rotundas, funiculares,
pilaretes e asfaltar o projecto de um Centro de Artes e Espetáculos, é boa
gestão; nada contra. No entanto, se temos saldo positivo e ao mesmo tempo
corporações de bombeiros em dificuldades, um rio poluído, uma má rede de
transportes urbanos, problemas de saneamento em algumas aldeias, miséria
flagrante às portas da melhor cidade para viver e assistimos à atribuição de
subsídios sem critério ou distinção aparente, é má gestão; nada a favor. Para a
saúde do próximo executivo um mal menor pode vir a ser muito.
2. Na
semana anterior, num jornal nacional, os viseenses foram considerados campónios
iletrados. A população, e bem, optou por barafustar ou desvalorizar. A
candidatura de Almeida Henriques, ao contrário das restantes que optaram por
ignorar, advertiu o director do órgão de comunicação. Seria positivo se a
última frase fosse uma caricatura, mas corresponde, tal como a “súcia do piropo”,
ao avanço generalizado de uma visão restritiva das liberdades. Neste ponto,
assistimos a uma estranha aliança entre reaccionários e progressistas. Aqui,
encontramos gente que até defende a liberdade de expressão, logo que esta
adopte um conjunto de regras. Regras que em última análise a limitam, claro
está. Há muita opinião e insulto escrito que devem ser rebatidas, no primeiro
caso, e processados, no segundo caso. Mas, se a liberdade de expressão está em
causa, os democratas, mesmo que alvo de ofensas, assumem a única posição
válida, a sua defesa. Considero o artigo de mau gosto, mas, caro Almeida
Henriques, não desejo viver numa cidade em que apenas possa ser reproduzido o
que é “simpático” para nós. Fazer boa cara à selva que é a vida em sociedade é
o primeiro passo para a vida democrática.
In: Jornal do Centro



