1.
Interlúdio
socialista: Resolvida a questão da liderança, nos
próximos meses o socialismo local viverá numa aparente, mas tumultuosa
calma. A militância reconduziu, de forma inequívoca, Lúcia Silva no cargo de líder
da concelhia, num acto eleitoral
que será recordado como um case study à medida da sociologia política. A
candidata colheu os frutos de ter desenvolvido uma campanha discreta, competente
no tom e eficaz na acção. De Filipe Nunes, fica a promessa de uma geração com
futuro. Entre alguns dos seus apoiantes, é perceptível a existência de uma certa juventude com vontade, qualidade
e maturidade para se afirmar no universo socialista. O próximo momento político
será a realização das eleições primárias internas. Com excesso de egos inflamados,
estas eleições afiguram-se como uma montra de vaidades socialistas. Do militante
é esperado que realize uma leitura em dois planos distintos. Por um lado terá
de escolher o candidato que melhor represente o partido, por outro terá de
escolher o candidato que dê melhores garantias no processo autárquico. A
tragédia, aqui, reside no facto de existir a forte possibilidade de estes dois
planos nunca se cruzarem, tanto no tempo como no espaço. Não é linear que uma
vitória interna, por mais meritória que seja, se reflicta nas autárquicas.
Neste momento a única certeza de muitos socialistas é que desse Cálix não
beberão, no entanto, em política, toda a prudência é pouca.
2.
Dúvida conservadora:
Pode um conservador não sentir certa nostalgia relativamente aos resultados eleitorais
do pré-Ruísmo? E o que espera esse conservador do próximo candidato autárquico?
Em terra conservadora para recuperar votos ao PSD e ao PS, Hélder Amaral parece
a escolha óbvia. Haverá espaço para uma alternativa? O CDS está condenado a ser
o partido de uma pessoa só? Optará, o CDS, a exemplo de Paulo Portas com
Assunção Cristas, por recrutar, a massa crítica que lhe parece faltar, na “sociedade
civil”? Em breve teremos todas as respostas. A direita, para sair vitoriosa,
terá de ser capaz de congregar o voto dos conservadores de sempre, dos órfãos
do Ruísmo e dos desiludidos do socialismo, agradar ao mundo urbano sem descurar
o mundo rural. Dessa candidatura espera-se que não ceda a excessos líricos ou
de análise, que apresente um discurso claro e rigoroso e que se liberte da
efemeridade a que a vida política está sujeita. Tudo a seu tempo. Para já importa,
em primeiro lugar, perceber se apenas Hélder Amaral será capaz de realizar esta
missão ou, em alternativa, existe um Boris Johnson, local, com capacidade para
abanar as fundações do centrão.
3.
O Ruísmo
envelhece mal: Nas ruas da cidade, os sinais exteriores de decadência são
óbvios. Algo indica que assisto ao fim de uma época. Caem as cortinas sobre o
Ruísmo. O que sobra de Viseu? Na Rua Formosa, entre espaços comerciais
devolutos, é impossível não reparar no Mercado 2 de Maio semi-abandonado. Já na
Praça da República um café-esplanada, de referência, fechado, ao lado o Museu
Almeida Moreira suspenso no tempo. Quem se responsabiliza pela destruição do
nosso património colectivo? Uma cidade que não respeita o seu passado
dificilmente terá futuro.
In: Jornal do Centro