terça-feira, 19 de junho de 2018

Do Interior


Na segunda metade do século XVIII, com a primeira revolução industrial, por toda a Europa assistem-se a grandes movimentos migratórios do meio rural para o meio urbano. Esta revolução chega a Portugal, ainda que de forma ténue, já no século XIX. A partir desse instante as populações, de forma paulatina, começam a fazer o seu caminho do campo para a cidade em busca de melhores condições de vida. Num processo até ao momento irreversível, ora forte ora fraco, Portugal assistiu à debandada de uma percentagem significativa de gentes do interior para o litoral e para o mundo.
Desde 1974, com a mudança de regime e consequente entrada de fundos europeus, graças ao trabalho de autarquias, IPSS's, investidores, agentes culturais e sociedade civil, a qualidade de vida das populações no interior sofreu uma evolução assinalável. Assim, nos cuidados paliativos, durante as últimas cinco décadas o interior foi resistindo e as populações, resilientes, foram andando. A realidade é que o fosso económico entre o litoral e interior não parou de aumentar, tal facto redobrou a capacidade de atracção de Lisboa e Porto em detrimento do interior.
Chegados a 2018, ainda não conseguimos estancar a hemorragia demográfica e, de Bragança a Beja, teimamos em ser uma região pouco atractiva tanto para portugueses como para estrangeiros em busca de residência em Portugal.
Neste momento, estima-se que o litoral concentre: 80% da riqueza nacional; perto de 90% dos alunos do ensino superior; 89% das dormidas e 83% da população jovem.
Historicamente sabemos que o principal motivo para as migrações é o factor económico. Quantos portugueses emigraram para França porque as francesas são liberais nos costumes? Quantos portugueses tiveram como destino a Alemanha porque a cerveja é variada? Quantos portugueses rumaram a Londres porque sonham viver numa monarquia? Quantos Portugueses optaram por Itália porque a comida é fantástica? Quantos portugueses procuraram emprego no Canadá porque preferem neve? Quantos Portugueses vivem no pacífico porque a água do mar é quente? A resposta é simples, nenhum. Apenas quando debelarmos o problema económico limitaremos a hemorragia demográfica, até lá nada feito.
Em qualquer rua do interior temos, de um lado, um jovem pouco qualificado que opta por sair porque não consegue sobreviver com o ordenado mínimo, do outro lado, ainda da mesma rua, um jovem qualificado não fica porque as suas expectativas de carreira profissional não podem ser cumpridas. Se é para o interior sobreviver, necessitamos, sem demoras, de um conjunto transversal de políticas públicas, de apoio à economia, que facilitem o investimento e a iniciativa privada, da fiscalidade à justiça, do turismo à educação e aos transportes. De uma política fiscal que privilegie quem cá está e quem vier.
Desde os incêndios de 2017, o Presidente da República, o Governo, os movimentos pelo interior, podem estar cheios de boas intenções, mas a verdade é que ainda nada de substantivo foi feito. Já os representantes locais, até ao momento, não demonstraram grande capacidade para se reunirem em torno de um desejo comum.
Sempre que esta discussão chega aos média, cuja agenda raramente passa as fronteiras de Lisboa e Porto, adopta-se um tom bucólico e paternalista. Ali, o interior não passa do sítio onde se come bem e se descansa, contemplando uma paisagem magnífica, local onde muito pontualmente surge algum projecto interessante. Essa imagem, que pouco ou nada faz pelo interior, também é reflexo da incapacidade para apresentar líderes aglutinadores e capazes defender os nossos interesses de forma efectiva. Cabe a estes líderes naturais, que ainda não surgiram, tomar a dianteira do debate e serem levados a sério por Lisboa, apoio do Presidente da República certamente não faltará.

Rua Direita Viseu







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