terça-feira, 17 de abril de 2018

A Herança


Desde o apogeu do Império Romano, existem duas regras universais sobre o "Bom Pater Familias", enumero:
A) Ele é Benfiquista. 
B) Ele deixa herança (seja esta material ou imaterial). 

Como o leitor saberá, nada existe sem um problema. O problema das heranças cai, irremediavelmente, na sucessão. Se ela é boa, todo o esforço, do agora defunto, terá valido a pena. Se ela é má, o defunto, munido de razão, dará duas voltas na campa e amaldiçoará para todo o sempre a sua descendência. 

Se o leitor considerar a nossa comunidade como família alargada, não sabendo qual a preferência clubística, não poderá negar que o Dr. Ruas deixou herança. Então, vamos assumir o Dr. Ruas como um bom pai que deixando herança poderá não ser benfiquista, mas seria certamente fã de Ayrton Senna. Como é do domínio público, ser fã de Ayrton Senna tem propriedades morais equivalentes a ser benfiquista, lava a alma de qualquer ser humano. 

Agora vem o tal problema: Ao fim de cinco anos a herança viseense aproxima-se a passos largos da Tragédia de Sófocles. Na tentativa de superar o pai, lavando ruas e avenidas da sua memória, o herdeiro decide eliminar ou recriar as obras mais emblemáticas/problemáticas do Ruísmo: Mercado 2 de Maio, Novo Mercado, Bairro Municipal-Demolição e Funicular. Superar o paizão, saindo em ombros, é a utopia do melhor dos Édipos. O Dr. Sobrado, letrado, saberá explicar isto melhor que eu.

Certo é que nestes 5 anos, o autarca-herdeiro, apenas se limitou a anúncios, numa espécie de ameaça madrugadora: "Pai, eu consigo fazer melhor que tu, mas agora deixa-me dormir, até à hora de almoço, porque ontem o evento terminou tarde". 

Existe a esperança que talvez, depois do almoço, vá a tempo de perceber que o verdadeiro valor está em criar, em pensar o próprio mundo. Limitando-se a recriar não ultrapassará a figura do herdeiro sem talentos reconhecidos, nunca será criador à imagem do pai. A sua única obra será a ideia nunca concretizada de apagar a obra paternal. 

De pretendente ao lugar de "Rei-Sol da Cidade-Região" a protagonista da "Melhor Adaptação Viseense de Uma Tragédia Grega" vai um curto passo. Não há nenhum Freud por aí que possa explicar isto? 

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