segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Da Tribuna [Rua Direita]


No último 7 de Novembro comemorou-se o centenário de Camus. Não sou francófilo, antes pelo contrário, o meu imaginário está refém do outro lado do canal [um problema geracional dirá, com toda a razão, o leitor mais atento]. No entanto, para lá dos Pirenéus também há um povo que precisa de carinho e volta e meia, normalmente em finais de Dezembro, simpatizo com a tribo. Não poderia deixar de ser de outra forma.
Repare, caro leitor, nunca fui apanhado a trautear o Frère Jacques ou a ouvir o Aznavour, mas aprendi a ler com os franceses, mais concretamente com Proust. Perdoem a hipérbole, pois já sabia ler e escrever, mas foi um pequeno ensaio de Proust, sobre leitura, que me cativou definitivamente para o vício. Um vício bem melhor que Gauloises. Quanto ao resto, os franceses sempre me pareceram uma espécie de espanhóis mas conhecedores de queijo, que sendo mais competentes na difícil arte do amor obviamente usam a língua para beijar; o seu território apenas existe para que Alemães e Ingleses possam resolver, até ao último morteiro, os excessos do seu imperialismo.
O que mais me afasta de França é a falta de testosterona, excepto para o amor. Até o socialismo gaulês parece mole [a culpa não será apenas de Hollande ou dos croissants], provavelmente esta tibieza surge como contraponto ao socialismo real, que deixou traumas mais à esquerda e mais a leste, o que, de certa maneira, não deixa de revelar uma atitude prudente.
Do ponto de vista do século XXI considero a Revolução Industrial, o Abril de 74 e a Revolução Sexual [a segunda claro] incomensuravelmente mais importantes, para a vida portuguesa, do que a Revolução Francesa [NB: cabeças rolantes não resolvem problemas, excepto de ordem demográfica]. Dos anos 50, do século XX, em diante a principal vitória diplomática dos franceses, mais do que a Linda de Suza, terá sido a nacionalização de Carla Bruni, o que não sendo equiparável a uma vitória em Dunquerque não deixa de ser um feito assinalável.
Mas, voltemos a Camus, sobre este, Mexia escreveu, "Defendia a liberdade de consciência e a "boa-fé", convicções fatais para quem está em política, domínio dos dogmatismos e da má-fé organizada". Ora é o exemplo de Camus, um socialista francês, que não vejo entre os socialistas nossos conterrâneos, que sofrem da mesma falta de fibra dos restantes camaradas franceses. Entre nós, apenas sobrevive o dogmatismo com que que é feita a discussão politica, bem como a má-fé dos caciques que permite antever os resultados eleitorais do socialismo local, votações na ordem de dois votos para um, invariavelmente, a favor do status quo.

Por isso caros socialistas, tendo em conta que a tibieza faz parte da vossa escola política, fiquem com os franceses que mais vos agradarem, mas deixem o Camus e a Bruni de fora.

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