quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Quero o meu Ruas de volta [Jornal do Centro]


Nas últimas semanas, cumprindo a lei eleitoral, foram apresentadas as listas concorrentes aos órgãos autárquicos locais. A única novidade é que não há novidades. Ao analisar as listas, devemos ter em atenção os dois pontos levantados, neste jornal, pelo caro Joaquim Alexandre Rodrigues: i “nos lugares elegíveis para a câmara e assembleia municipal, o aparelhismo partidário mais seguidista e acrítico, polvilhado aqui e ali com um ou outro académico para enfeitar”; ii “nas listas de freguesia, generosidade e amor à comunidade[ponto 3]. Se nenhuma alma razoável terá dúvidas relativamente à generosidade inscrita no segundo ponto, o primeiro ponto será razão mais do que suficiente para transformar até o leitor mais apático num saudosista por antecipação. Numa primeira leitura, sobre as listas, se fosse republicano [na acepção ianque da palavra] messiânico, ao mesmo tempo que moderava o meu entusiasmo relativamente ao fim do Ruísmo, resumia a minha reacção inicial a duas palavras “Choque” e “Pavor”. Se o leitor, neste momento, questiona: Foi desta que o Miguel vendeu a alma ao Ruísmo? Serei obrigado a responder com a prudência do costume: Nada de confusões meus caros, se por um lado nem todo o Ruísmo foi negativo, por outro lado, nem tudo o que é novo é bom. Vamos por partes. Porque é que o Ruísmo não foi assim tão mau? Se tivermos em conta um certo modelo de desenvolvimento, Ruas foi um autarca no mínimo competente. Entendeu o modelo de gestão dos anos 80/90, definiu a rota e seguiu o seu caminho. O problema – e aqui há sempre um problema, não é?-: Entretanto virámos de século, entrámos na segunda década do milénio, sem assistirmos a grandes alterações de fundo em termos de políticas públicas. Entrámos com vontade no pós anos 90, liderados por um autarca que não envergonharia ninguém, no entanto, ano após ano fomos sendo ultrapassados tanto pelo tempo como por executivos autárquicos cada vez menos dinâmicos [o adjectivo, aqui, funciona como eufemismo], tudo isto sem queixumes por parte de uma oposição anónima. Porque é que nem tudo que luz é ouro? Porque fruto das circunstâncias temos a oportunidade, mas não a vontade, de mudança. Esta “não-vontade” de mudança, que em parte será explicada pelo mero receio do desconhecido, que habita em cada um de nós, também é responsável pelo mofo que se apoderou dos partidos. Internamente, a fauna partidária, sobrevive graças a uma vigorosa dieta assente no tal “seguidismo acrítico aparelhista”, esta dieta além de garantir imutabilidade das coisas, evitando sobressaltos, elimina a possibilidade de qualquer tipo de pensamento crítico ou alternativa interna. A presença do académico ocasional ou de um ou outro independente é justificada na exacta medida em que permite garantir a manutenção do status quo transmitindo, ao mesmo tempo, a falsa ideia de mudança e abertura ao exterior. Perdão cavalheiros, atendendo às vossas listas, se é para manter tudo na mesma prefiro o original. Quero o meu Ruas de volta.

In: Jornal do Centro

5 comentários:

  1. Que discurso Miguel! Cá por mim, só se voltar de bengala, cabelo branco e sem bigode!

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  2. Líderes fracos, listas fracas, paga o povo.

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  3. Pedimos desculpa mas é apenas para divulgar. Um casal, a crise, poupanças e histórias de quem vive a crise como muitos outros, mas onde a poupança é o melhor remédio. Pode passar a mensagem…? Obrigado!

    http://ocarteiravazia.blogspot.com/

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  4. Miguel, pedir o regresso de Ruas está ao nível dos que pedem outro Salazar. Compreendo o que diz, mas ninguém no seu bom senso pode pedir mais o modelo Ruas que está acabado. E em dois meses enterrado. Ele bem pode querer ressucitar, mas já não será capaz. Só mesmo se tiver falta de vergonha e não perceber que ninguém gosta de pessoas que se agarram ao poder até à eternidade.

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    Respostas
    1. Ora, era o que eu temia, o caro amigo vai-me obrigar de novo a fazer a defesa, possível, de Ruas.
      Não quero um novo Salazar ou um novo Ruas. Se tivesse de escolher optaria por Ruas, repare que uma democracia é uma democracia. Ruas foi eleito e re-eleito, bem ou mal é bastante mérito do próprio e muito demérito da oposição que não apresenta alternativas. Como digo no texto, o Ruísmo está acabado vai para uma década, sem que ninguém tenha dado conta que carrega uma entidade sem vida às costas.
      No entanto, o facto que me leva a escrever o texto é mais alarmante. Estamos a meses, de finalmente enterrar o Ruísmo e parece que os principais candidatos à sucessão não são capazes de melhor. E isto justifica os 24 anos de existência do Ruísmo, para o bem e para o mal.
      Abraço.

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