quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Da Tribuna [Jornal do Centro]


1.      Militantes de Pavlov: Perdemos algum tempo a discutir a evidência de Passos Coelho e José Seguro serem as duas faces da mesma moeda. Tal facto, além do modesto entretenimento televisivo que proporciona, não seria necessariamente mau caso o valor facial da moeda fosse superior ao valor das jotas onde estes se fizeram “políticos” – atenção, as aspas estão aqui por algum motivo. A crise, exceptuando as causas internacionais, passa em grande medida pela partidocracia que se substituiu à democracia desejada e que choca de frente com a qualidade das lideranças políticas. Sim, é verdade que os actuais líderes partidários, através da sua acção, não conseguem acrescentar qualquer valor- uma expressão em economês, que esta gente tanto preza- à causa pública. Não haja dúvidas neste momento o resultado é de soma zero. Alguns dirão que já não existem estadistas – uma espécie que por cá deu sinais de vida entre 74 e 86-, no entanto o panorama é mais negro. Já não há grandes ou médios políticos, sobram os pequenos. Este problema é reflectido na vida local, sem qualquer tipo de distorção, antes pelo contrário, é ampliado, aos olhos do cidadão, tanto devido aos efeitos da proximidade como às fragilidades, mais profundas, dos aprendizes de feiticeiro. Quantos de nós não conhecem um ex-jota que construiu a vida na sombra do partido? Um outro que subiu na estrutura e a partir daí foi ganhando concursos sem ninguém perceber muito bem como? Aquele outro que, sem distinguir o partido do estado ou ideologia de sound bite, chega a líder? A quantos não foi dito, sê meu aliado, assina a ficha, estuda Direito e nós cá estaremos para te “apoiar”? Exemplos desta natureza sobejam. Os jovens, que se fizeram dentro do partido, invariavelmente têm as mesmas preocupações – algo redutoras, que representam o pensamento mínimo que os acompanha ao longo da vida-: Qual o grupo que melhor salvaguarda a minha posição; Quem devo defender, quem devo atacar e em que altura; Qual o timing para avançar, qual o tempo para fazer de morto; a quem agradar, com quem discordar? Também existe um outro lado, este bastante mais raro. Este lado, muito provavelmente, aos 16 leu Nietzche, aos 20 passou algum tempo com Larkin, e até pode ter algum interesse na Política – aqui sempre com P maiúsculo-; até pode entrar nas estruturas mas rapidamente entendem que as leituras não lhes falharam e, das duas uma, ou são vítimas dos interesses instalados ou se auto-excluem, conformados com aquilo que já sabiam sobre natureza humana. Meus caros, até bater no fundo não há nada a fazer.


2.      Viver Viseu: Os Jardins Efémeros trazem a Viseu a brisa fresca da modernidade, como a modernidade é baseada na iluminação, são eles que por uma semana iluminam o centro histórico. Viseu, fruto da iniciativa privada, parece querer destacar-se das restantes cidades de média dimensão, cidades onde invariavelmente se peca por falta de uma dinâmica própria, fruto do principal atavismo luso – escassez de massa crítica. A cidade, paulatinamente, faz a transição de mera consumidora a produtora de eventos. Ao público, que percorreu o centro histórico, foi proporcionada segurança aliada a um certo grau de excitação pré-estival; uma programação sólida e variada, composta por sofisticados espectáculos pós-pop. Tudo muito contemporâneo, como só através da arte é possível ser. Dos Jardins, que alargaram o leque da oferta cultural, espera-se que cresçam e mantenham o espírito indie que a política local, fruto da mais pura ignorância, procura institucionalizar à força. Que a cidade-fantasma, dos últimos anos, passe a memória-fantasma. 

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