quinta-feira, 11 de julho de 2013

Da Tribuna (Jornal do Centro)


A Cultura, nas suas diversas formas, parece ser o tema transversal a esta pré-campanha autárquica. Não há programa, evento, declaração ou mesmo interjeição que não passe por juras de amor eterno à nova modinha. Esta é uma situação que revela que a cultura na cidade está a ganhar uma dinâmica social à qual o actual executivo não conseguiu dar resposta conveniente. Se por um lado os sociais-democratas apresentam Dalila Rodrigues como cabeça de cartaz, por outro lado os Socialistas apresentam Manuel Maria Carrilho como “O Ministro da Cultura”, no meio disto a simpática Ana Paula Santana será sempre o elo mais fraco.
Usando um critério bastante benevolente, os socialistas, tornaram-se mestres a “vender” Carrilho como o melhor Ministro da Cultura que este país já conheceu. Num dia ameno até podemos dar isso de barato. A realidade é que não tivemos muitos Ministros da Cultura e ser o melhor não significa necessariamente ser excelente, bom ou mesmo razoável, dependerá sempre do termo de comparação. A governação de Carrilho, no seguimento de Santana Lopes, a exemplo dos países europeus mais dirigistas em termos culturais, institucionalizou o modelo Malraux-Lang em detrimento do modelo anglo-saxónico; para Pacheco Pereira a diferença essencial entre Carrilho e Santana [o Pedro, nunca a Ana Paula] é de classe social, pois se um apoiava a "vanguarda" outro apoiava a "rectaguarda". O modelo Malraux-Lang, tão querido ao centrão, assenta na política de grandes obras físicas –betão em bom português-  e em grandes doses de subsídios ou apoios estatais como instrumento de combate à cultura pop-mainstream/subsídio-independente norte-americana, este modelo que conduziu à excepção cultural francesa, volta e meia ainda tem a capacidade de nos brindar com secas monumentais. Grosso modo financiar activamente foi o “Modelo Carrilho”. Em que se traduziu isto? Numa série de programas tais como a “Rede  de  Teatros  Históricos”,  “Rede Nacional de Teatros e Cineteatros” e a “Rede Municipal de Espaços Culturais”; desenvolvidos numa óptica de perpetuar o regime através da obra física. Tendo o Ministério  da  Cultura assumido compromissos para  os quais  não tinha capacidade de  financiamento a médio-longo prazo, como entretanto a Troika fez questão de provar. Muitos destes programas foram implementados sem qualquer tipo de referências sobre as práticas  culturais locais; sem  que  tenham sido desenvolvidos conteúdos programáticos específicos para cada localidade; sem estudos sobre a viabilidade dos equipamentos; sem uma estratégia cultural para o território quer do ponto de vista do público como dos artistas. Chegados à segunda década deste século, das setenta salas da rede de cineteatros apenas sete cumpriam as exigências para ter acesso às verbas do QREN -ter cento e cinquenta eventos programados e cinco mil espectadores. Estamos, portanto, perante uma  política que  operou uma verdadeira revolução ao nível do edificado, mas  que  em pouco  contribuiu para o desenvolvimento de práticas culturais, das artes e do espectáculo ou mesmo para uma educação social para a cultura. Tratou-se, antes de mais, de responder a  uma  execução  orçamental – ao gosto de Bruxelas-, sem qualquer tipo de consequência no campo das ideias, do que de  uma verdadeira política pública para a cultura. Este é o legado de Carrilho, “o melhor Ministro da Cultura”, numa terra em que ainda se confunde o construtor civil – o cavalheiro que constrói o Teatro- com o programador cultural – o cavalheiro que dá vida ao Teatro.

2 comentários:

  1. Politicamente correto, diria o seu texto excelente. Mas, em cultura isso não existe. A excelência é sempre o ângulo do debate. Em tempos de crise, a cultura não existe. Sem crise, sobrevive. Nunca tivemos ministros digeriveis. Tivemos, isso sim, políticos de ocasião, que se souberam servir da cultura e, em terra de cegos... Até, porque já dizia o outro, quando lhe falavam em cultura, puxava da pistola. Nunca Eduardo Prado Coelho ou Eduardo Lourenço, foram Ministros da dita. Tivemos sempre uns burocratas ambiciosos. Mas, no páis dos sacanas, como escreveu Jorge de Sena, não poderia ser de outra maneira.

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    1. Grato pela simpatia, relativamente aos nomes avançados para os ministérios facilmente acolheria Eduardo Lourenço a ideia que me ficou de Prado Coelho foi de um homem excepcionalmente culto mas sem um filtro. Se encontrar ex.ministros puxarei da pistola

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