quinta-feira, 27 de junho de 2013

Da Tribuna (Jornal do Centro)


1.      Medalhas que não se usam ao peito: Caro leitor confesso que tenho um sonho recorrente. Este sonho começa invariavelmente numa manhã de nevoeiro. Eu durmo profundamente até que por volta das 11h, segundo o relógio de cuco, a campainha começa a tocar freneticamente. Passam cinco minutos, eu rebolo para a esquerda, rebolo para a direita, passam dez minutos e acordo do meu sono de beleza. Visto o robe, calço os chinelos, faço sinal ao mordomo para servir um Gin Tónico, dou uma vista de olhos no pasquim local, a campainha teima em não dar tréguas. Com a calma natural aos cavalheiros acendo o cachimbo, desço a longa escadaria em mármore rosa, ao fundo o valete abre a porta. Do outro lado, dou de caras com um Lord inglês, gente de classe, que me vem condecorar por serviços (indefinidos) prestados à pátria. Coisa de gente graúda! Não há tempo a perder, a cerimónia é realizada ali mesmo no jardim, em frente ao cão, entre o instrutor de equitação e as pirâmides que mandei vir do Egipto, no público conto uma centena de súbditos. Ouvem-se 12 salvas de canhão, na povoação mais próxima inicia-se a festa, 24 hora de decadência pós-moderna, com uma caça à raposa pelo meio. No fim da cerimónia passo o devido cheque, coisa de pouca monta, algo na ordem das 3.800 libras. Termina o sonho, de volta à realidade. Quem tem ideias napoleónicas, mesmo que não frequente um psicanalista, pode ser autarca não deve é usar dinheiros públicos para realizar sonhos privados. Resta aguardar que toda a polémica, em torno do prémio de “Melhor Cidade” e “Melhor Autarca”, não passe da vergonha provinciana de ser um mero lapso de tradução e não um excesso napoleónico de fim de mandato.

2.      Democracia é coisa de cavalheiros: As duas últimas semanas trouxeram o sal que faltava a uma cidade em claro défice de agitação. Para esta subida de temperatura política em muito contribuiu o facto de ter sido recusada, ao CDS-PP, a possibilidade de apresentar a candidatura de Hélder Amaral no Solar do Dão. Se por um lado a CRVD, entidade gestora do espaço, acedeu ao pedido centrista, por outro lado, a autarquia, decidida a ganhar a causa na secretaria, pela mão de Américo Nunes recusou a cedência do espaço. É este o erro original que desencadeia toda esta celeuma. Hélder Amaral, sem Sun Tzu à mão, optou pela bomba atómica, ao escolher o Rossio para a apresentação. A entretanto desejada Praça da República é recusada pela autarquia e a respectiva queixa centrista seguiu para a Comissão Nacional de Eleições. Neste momento, entra em jogo a teoria do interesse mútuo [vai daqui um abraço ao Kissinger], a candidatura de José Junqueiro, plena de oportunidade, endossou o seu apoio às pretensões do Partido Popular; seguida de perto pelo Bloco de Esquerda; e o eterno contestatário PCP junta a voz ao coro de protestos; de Almeida Henriques apenas se ouviu um “Ninguém pode colocar-se acima da lei nem reclamar um estatuto de excepção.” (!?). Finalmente, a decisão da comissão nacional de eleições dá voto favorável aos centristas e a partir daí as portas do Rossio, a Praça Tahir da democracia-cristã local, ficam abertas a qualquer tipo de acção partidária. Se numa primeira instância os vencedores desta contenda foram Hélder Amaral e a vida democrática, com o direito de reunião em espaços públicos a ser salvaguardado, numa segunda instância os derrotados são a autarquia, em toda a linha; a candidatura de Almeida Henriques, que pressionada faz um comunicado totalmente despropositado; e de novo o espaço público, pois tendo sido aberta a caixa de Pandora…

3.      Programas Eleitorais: Como o povo bem sabe, os programas eleitorais não são escritos para serem lidos. Regra geral são documentos extensos, escritos por gente maquiavélica, num português indecifrável. O que acaba por não ser mau visto que o seu destino é serem ignorados no pós-eleições. Como as eleições que se avizinham encerram a hipótese de uma mudança real, todos nós devíamos fazer o esforço de conhecer os programas apresentados. Claro, aqueles que relegam a cultura para as páginas dos fundos estão automaticamente excluídos de qualquer tentativa de leitura.


1 comentário:

  1. O rimos disto ou choramos. Isto já não tem emenda.

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