terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Raymond em Viseu


Confesso que gosto de ler biografias e memórias. São o meu reality show "literário" preferido. Sem as desvantagens dos formatos televisivos, a saber: Os participantes não estão sujeitos ao voto do público; O vocabulário não é sofrível; As senhoras, com uns quilos a mais, estão sempre vestidas; Os participantes nunca foram convidados para o Carnaval da Mealhada; Raramente o Correio da Manhã tem notícias em que os intervenientes sejam referidos; Não são apresentadas nem por Júlia Pinheiro, nem por Teresa Guilherme. Portanto todas as vantagens, nenhum inconveniente.
Neste momento leio: Memórias de Raymond Aron (1905- 1983), editado pela GUERRA & PAZ. 
Raymond Aron, filósofo e sociólogo, homem prudente, céptico, adorava o diálogo e não fugia ao debate. Aqui não há nenhuma indirecta, para nenhum político local, garanto!
Esta obra relata a sua vida, num século em que o mundo mudou e a dicotomia entre marxismo e liberalismo atinge o seu auge. 
R. Aron é um realista clássico, um Keynesiano liberal, alguém que não se define como de direita ou esquerda. Para Raymond, em todos os assuntos, as suas posições políticas e sociológicas dependiam sempre, mas sempre, dos problemas apresentados. São recordados os principais combates da sua vida, muitos dos quais com o seu bom amigo Satre. Aron é alguém generoso para com o adversário, como só os verdadeiros cavalheiros sabem ser, capaz de entender as qualidades dos que criticava e as fraquezas  dos que defendia. Para Aron, a beleza e a fragilidade do liberalismo reside no facto de que "este não abafa as vozes mesmo as mais perigosas". O seu pensamento pluralista ainda é actual e necessário. Seria bom que, algumas cabeças cá da terra, passassem os olhos por esta obra.

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