quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

A geografia do crime


De facto o mundo é pequeno, muito pequeno. Quando acontece uma tragédia acabamos, inevitavelmente, por conhecer alguém próximo da vítima. Todos os factos, relativos a este triplo homicídio, conduzem-me de novo a Truman Capote.  
A obra " A sangue frio", entre nós editada pela Dom Quixote, é um dos textos mais perturbadores alguma vez escrito, tanto pelo clima de ansiedade, para o qual nos remete, como pela sensação de violência latente. Fruto de 5 anos de investigação, para a revista The New Yorker, tendo sido originalmente publicado nas suas edições, de Setembro e Outubro de 1965. O livro relata, com grande pormenor, os eventos que levaram a uma noite de violência, sem motivação aparente, resultando no homicídio, a tiro de caçadeira, de quatro elementos da família Cutler. A acção decorreu, a 5 de Novembro de 1959, na pequena cidade americana de Holcomb, estado do Kansas. O evento, desde logo, induziu uma disrupção à ordem natural da vida na, até então, calma cidade. A dúvida sobre a autoria dos assassinatos levou a que os vizinhos desconfiassem uns dos outros e a recear pela própria segurança. 
O autor, no livro, começa por apresentar e humanizar todos os participantes do fatídico evento. A família Cutler é nos apresentada como: pessoas honestas, trabalhadoras, com boas relações de vizinhança. Neste momento, o leitor percebe que poderiam ser seus vizinhos, amigos ou até familiares. Também somos transportados para o universo dos homicidas Perry Smith e Dick Hickock, sendo revelado como se conheceram e embarcaram nesta viagem até ao corredor da morte. Smith é apresentado como um jovem sensível, inteligente, fruto de uma família disfuncional, possivelmente esquizofrénico e atormentado pelas memórias da juventude. Dick Hickock é visto como criminoso comum, psicopata, destemido, detendo pouca consciência ou empatia pelo “outro”, com uma obsessão por raparigas jovens. 
Toda a acção relatada, ocorre num espaço temporal que se inicia semanas antes do acontecimento, seguem-se os momentos do homicídio, a detenção dos autores, o julgamento, a apresentação de recursos judiciais, até à execução final em 1965. 
Apesar dos resultados do crime e os seus autores serem indicados no início, o leitor é mantido em estado de alerta, à espera do relato do crime, pois sabemos que algo extremamente violento irá acontecer. As perguntas que surgem, ao longo da obra, são: Porque mataram? E como mataram? O livro, não deixa de lançar uma visão sobre o funcionamento do sistema judicial americano, bem como uma reflexão sobre a aplicação da pena de morte.
Na minha opinião, tendo mente que o livro é uma narração de factos reais, esta é uma abordagem honesta à geografia da crueldade, violência e perversão sexual, inerentes à condição humana. 


Ver texto original publicado na The New Yorker: Parte I; Parte II; Parte III; Parte IV 

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